terça-feira, 25 de junho de 2013

Dois Santuários no eixo que corre de Minas a Pernambuco, cruzando toda a Bahia, a caminho do mar...

Seguindo a palestra de Ariano Suassuna, proferida em dezembro de 2012, em Belo Horizonte, no programa  Sempre um Papo, fiquei contente de poder ouvi-lo comunicar-nos sobre os motivos e o sentido simbólico profundo do Santuário de estátuas esculpidas à frente da Pedra do Reino em São José do Belmonte-PE. Ele foi construído em homenagem a Aleijadinho, em comunhão simbólica com o santuário do Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas-MG, onde se encontram as 12 estátuas dos profetas do Aleijadinho.

"O Aleijadinho era um escultor de importância mundial", diz Ariano. "Um grande romancista francês, André Malraux, escreveu um livro, muito bonito aliás, chamado  O Museu Imaginário. Ele pegou e colocou num livro só o que há de mais importante na arte do mundo inteiro... e o Aleijadinho está lá. E para mim isso não é cartaz para Aleijadinho não, é cartaz para André Malraux, que teve o bom gosto de descobrir a beleza do [Santuário]." E acrescenta: "Eu prefiro Aleijadinho a Michelangelo. Vejam bem: Eu respeito Michelangelo, sei da importância dele, mas Michelangelo fazia uma arte muito ligada à medida, à harmonia, e eu não gosto não, acho meio monótono. Tem gente, inclusive, que reclama, dizendo que Aleijadinho não sabia de anatomia, - graças a Deus! - tá certo?, porque isso aqui não é um homem não, é uma escultura. [...] Ele não tem erro de anatomia não; esse erro de anatomia que, por ventura, ele deu, graças a Deus!, é isso que faz a maior força em Aleijadinho, essa arte meio áspera, e muito brasileira. Ele era um artista do grandioso e não do belo". E explica: "Estou mostrando isso a vocês porque, desde que eu li a frase de Alceu Amoroso Lima... - e eu vou repetir para vocês guardarem, porque é muito honrosa para nós nordestinos e para vocês mineiros, ou melhor, para nós nordestinos, mineiros e brasileiros, como somos -, então, repare, ele diz: 'Do Nordeste para Minas corre um eixo, que não por acaso segue o curso do Rio São Francisco, o rio da unidade nacional; a esse eixo o Brasil tem que voltar de vez em quando, se não quiser se esquecer de que é Brasil'. Essa frase ele me disse, tá certo?, depois ele publicou, mas ele me disse, ele era meu amigo. Pois bem, desde que eu li essa frase, eu comecei a pensar qual seria a expressão plástica da ponta mineira do eixo, aí eu disse, é o santuário de Congonhas. Então me lembrei disso aí: doze profetas, esculpidos em pedra por um homem mulato, doente, e que se sobrepôs acima das suas dores, dos seus sofrimentos, das suas angústias pessoais, para fazer esse monumento imperecível de beleza que está aí, para honrar o nosso país."

Então Ariano acrescenta que quando tomou conhecimento dessa frase de Alceu Amoroso Lima, e tendo identificado o santuário de Congonhas como sendo a expressão plástica da ponta mineira do eixo, tomou a decisão de "construir no Nordeste um santuário em homenagem a ele, ao Aleijadinho, e que vai assinalar a ponta nordestina do eixo". Foi então que Ariano construiu o Santuário denominado Ilumiara da Pedra do Reino, em São José do Belmonte, em frente à conhecida e mítica Pedra do Reino, inspiração de seu Romance. E prossegue dizendo: "Então eu resolvi erguer, e conclui, as dezesseis esculturas gigantescas em granito, feita por um grande escultor de origem popular, Arnaldo Barbosa. [...] As duas pedras que já existiam ficam sendo as torres da igreja". Uma fica do lado da Paraíba, no município de Misericórdia; a outra fica do lado de Pernambuco, no município de São José do Belmonte. Então, Ariano conta que resolveu fazer lá o santuário, dizendo que fez "um círculo dividido em dois hemisférios: o hemisfério do sagrado e o do profano [...]; no centro tem um marco, que eu coloquei ali e na frente tem [a inscrição] 'Ilumiara Pedra do Reino' e atrás tem 'Uma homenagem a Aleijadinho'." E finaliza: "Eu quis mostrar que esse santuário aí nasceu do de Congonhas, para assinalar a outra metade", isto é, a outra ponta do eixo apontado por Alceu amoroso Lima.

O Livro que Ariano prepara já há mais de vinte anos será chamado A Ilumiara. Segundo ele, de acordo com entrevista concedida em Taperoá-PB à jornalista Adriana Victor e transmitida na Rede Globo, a obra vai constar de quatro romances, ele disse em uma entrevista que "o primeiro dos quais será uma nova versão da Pedra do Reino, que já estou reescrevendo. Então o primeiro vai ser A Nova Pedra do Reino. O segundo vai se chamar  Quaderna, o Decifrador, que é a conclusão da Pedra do Reino. O terceiro vai se chamar A Onça Castanha. E o quarto vai se chamar O Palco dos Pecadores. E o todo forma um conjunto que se chama A Ilumiara". A Obra Literária será aberta com o seguinte poema:

Quem, seguro de si, cego do Sol,
Entrar por este Pasto incendiado,
Verá o riso, o choro e o desatino
De um grande povo, pobre e ilumiado.
Forjado ao Sol castanho da favela
E ao céu do Arraial do Leopardo.



sexta-feira, 19 de abril de 2013

"Microetnias" Indígenas e o Destino da Nação

Observações à leitura de O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro

Neste dia 19 de abril, dia que o país escolheu para homenagear os povos indígenas, considerei importante refletir sobre algumas passagens de uma grande obra de Darcy Ribeiro, intitulada O Povo Brasileiro, com vistas a, nesse dia, dedicado aos povos indígenas, levantar alguns questionamentos críticos a respeito do que ali está dito sobre os povos indígenas, e verificar que repercussão a presença e a luta dos povos indígenas hoje no Brasil têm para as nossas atitudes nacionais, sejam estas consideradas de um ponto de vista ético ou de um ponto de vista político.

Ao considerar o fato de que o Brasil acabou por não se constituir, segundo ele, em uma sociedade multiétnica, id est, com etnias distintas que vivem isoladamente, com exceção de algumas etnias tribais, Darcy Ribeiro verifica que "os brasileiros se sabem e se sentem e se comportam como uma só gente, pertencente a uma mesma etnia" (RIBEIRO, 2006, p. 19). Convém, porém, que reflitamos sobre essa afirmação e a pensemos criticamente, refletindo sobre seus limites.

Primeiro, é importante considerar que, fundar a teoria da história brasileira, tal como pretende Darcy Ribeiro, no conceito de "transfiguração étnica", sendo este utilizado para apreender "o processo pelo qual os povos surgem, se transformam ou morrem" (RIBEIRO, 2006, p. 16), não me parece suficiente. Surgimos da chegança ameaçadora, devastadora e mortífera da ação genocida ou mesmo etnocida  da civilização européia, coisa que o próprio Darcy Ribeiro reconhece em várias de suas páginas. Porém, podemos verificar que, nesse processo, não houve propriamente uma transfiguração, mas uma reconfiguração do território e mesmo uma desfiguração étnica, sob certos aspectos. A falta de respeito na chegança, falta de respeito, dignidade e lucidez, e a gravidade da violência cometida, não permitiram efetivamente a sobrevivência étnica e mesmo multiétnica, até certo ponto. Os atos e a própria atitude planificadora e violenta da ação, nos processos civilizatórios europeus, trazem consigo já como pressuposto e mesmo como princípio regulador a dissolução étnica, no trabalho por sua dilaceração e por sua desfiguração bioecológica e cultural. Isso aconteceu tanto no encontro com os nativos Tupinambás ou Tarairius como na espoliação, expatriamento  e escravização de Bantus, Malês ou Sudaneses. Por exemplo, Joaquim Nabuco exprime como a escravidão "viciou" os afrodescendentes e mesmo os portugueses, desfigurando-os etnicamente, na medida em que "promoveu a degradação de um povo pelo servilismo brutal a que foi submetido e a degradação de outro por sua imperiosidade brutal" (cf. NABUCO, ..., p. 123). A degradação desta última, isto é, dos portugueses e outros que para cá vieram impulsionados pelo espírito colonizador, consiste fundamentalmente na bestificação facínora, genocida, devastadora e escravista, própria de um povo amoral, explorador e violento.

A violência cometida pelos processos civilizatórios europeus não permitiu, até certo ponto, de fato, a sobrevivência étnica; muito pelo contrário: a vida dos povos que os europeus encontraram foi dilacerada em vista dos objetivos da expansão civilizatória e da exploração das riquezas dos territórios ocupados, (recursos naturais tomados já como fundos de reserva para a produção manufatureira e o mercado comercial de larga escala, em uma de suas primeiras fases globais). O que nos restam são despojos, vestígios e signos de resistência nos povos que até hoje se mantêm como, nas palavras de Darcy Ribeiro, "microetnias que sobreviveram como ilhas cercadas", pelos cidadãos exploradores do Estado Brasileiro, ou naqueles que, "vivendo para além das fronteiras da civilização, conservam sua identidade étnica" (RIBEIRO, 2006, p. 18). Não tem, porém, o Estado Brasileiro e seus cidadãos, a tarefa de, face a essas minorias, repensar-se em seu processo civilizatório? Estou convencido, de que já não se trata mais só de "proteger enquanto pode", e esperar o dia de assinar o atestado de óbito dessas nações! Não podemos ficar tão indiferentes ao destino dos povos indígenas, a ponto de pensarmos, como Darcy Ribeiro, que "são tão pequenas, que qualquer que seja seu destino, já não podem afetar a macroetnia em que estão contidas".

Há uma voz calada e, até certo ponto, desconhecida, que grita no interior dos restos de florestas que deixamos. Será que, de fato, ela não nos pode afetar, independentemente de qual seja o seu destino? Será que, pela nossa historicidade e o sentimento que dela emerge, não podemos tomar consciência do pensamento e significado que essa voz desconhecida exprime, no meio da floresta? Será que as lutas dos remanescentes dos antigos povos não continuam a falar em viva voz, em alto e bom tom, ainda que a ouvidos surdos, da necessidade de transformação e, aí sim, de transfiguração que temos de operar em nossas atitudes? Será que não é hora de dizer chega à planificação planetária e rengar o "progresso e a ordem", que têm sido, ao pé da letra, nossa bandeira de luta?

Face as "microetnias tribais" e àquelas que vivem "além da fronteira da civilização" e "conservam sua identidade étnica", faz-se necessária uma nova atitude dos cidadãos brasileiros que as cercam e do Estado Brasileiro que as "reúne" e "protege". Sua presença entre nós, longe de nos tornar indiferentes à sua voz e ao significado de suas existências singulares, deveria, muito antes, ser fonte de reflexão para deparar as exigências que, como um imperativo categórico, demonstra suas razões universais e suas exigências; não falo nesses termos pensando somente em Kant, mas também em Joaquim Nabuco, que, segundo ele próprio, fez da abolição uma ideia religiosa e a luta de uma vida "não por prazer, nem por vocação de apóstolo, mas por dever, obedecendo ao simples imperativo categórico da minha nacionalidade, ao fato unicamente de ser brasileiro, e como eu há tantos" (NABUCO, ..., p. 183). Eu o faço por dever, obedecendo não só à minha nacionalidade, que, objetivamente, me obriga, mas também à minha própria ancestralidade, ao fato de saber-me simplesmente ser descendente de índio, o que me impulsiona subjetivamente. Hoje, essas exigências que emergem como preceitos para nossa nação em virtude se suas "microetnias" são, por exemplo: cultivar a terra devastada com florestas frondosas; recuperar os rios; frear o "progresso desenvolvimentista", que não só abusa da terra ao se utilizar dos seus recursos, como impõe aos seres humanos um modo de vida pernicioso e pervertido; recuperar na "macroetnia" o bom senso da "microetnia"; tudo isso e tanto mais, não deveria se tornar imperativo categórico para um Estado autenticamente livre?

A história das hoje "microetnias" do brasil já há muito tempo tem demonstrado que as máximas de seus indivíduos, há muito têm se tornado preceitos de suas comunidades étnicas. Não será hora de o Estado Brasileiro dar provas de sua liberdade e soberania, e promulgar as leis que, purificadas de todo interesse, exceto o interesse da razão, transmitem o ideal desse momento ensaístico da humanidade histórica?

Não é de hoje que os preceitos das "microetnias" ecoam na história desse país e conclama a seus cidadãos e cosmopolitas, em muitos de seus recantos, e conclamam à humanidade a transformá-la em vontade geral das nações. Os processos civilizatórios revelou-se em muitos recantos da história como uma faca de dois gumes, senão como uma terrível doença contagiosa na história da humanidade. Temos que parar e recuperar o bom senso perdido, dando ouvidos aos remanescentes de nossa ancestralidade. No destino das chamadas "microetnias" está o destino de nossa nação.

O Brasil ainda não entrou de cheio na luta pela "salvação" do planeta. Esse imperativo cosmopolita tem ganhado o mundo, mas ainda não atingiu o coração das nações. Só alguns redutos lhe permanecem obedientes em função de seus costumes milenares, que não se deixaram ou não conseguiram se contaminar pelas doenças do processo civilizatório.

Mas incomoda-me ainda o fato de, ao compreender a sociedade brasileira como uma "macroetnia unitária", Darcy Ribeiro assegurar que a única exceção a essa regra "são algumas microetnias tribais que sobreviveram como ilhas, cercadas pela população brasileira. Ou que vivendo para além das fronteiras da civilização, conservam sua identidade étnica. São tão pequenas, porém, que qualquer que seja seu destino, já não podem enfrentar a macroetnia em que estão contidas" (RIBEIRO, 2006, p. 18). Como se não bastasse referir-se às etnias remanescentes como "microetnias" e dizer que seu destino não nos afeta, ainda insiste, mais adiante, que "os brasileiros se integram em uma única etnia nacional, constituindo assim um só povo, incorporado em uma nação unificada, num Estado uniétnico" (RIBEIRO, 2006, p. 19-20); um povo de quem ele disse ser um povo novo que, segundo dois aspectos, dentre quatro que ele apresenta, é "novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de traços culturais delas oriundos" e, num segundo aspecto, "novo porque se vê a si mesmo e é visto como uma gente nova, um novo gênero humano diferente de quantos existam" (RIBEIRO, 2006, p. 17). E, consciente disso, torna ainda a assegurar "que a única exceção são as múltiplas microetnias tribais, tão imponderáveis que sua existência não afeta o destino nacional" (RIBEIRO, p. 20).

Por que tal discurso me incomoda? Vejo que esta última sentença até pode fazer algum sentido do ponto de vista sócio-econômico, mas não creio que seja justa de um ponto de vista ético-político. Não convém dar este atestado de óbito sem alertar sem alertar para a implicação ético-política que ele possui. Como bem dizia Karl Jaspers: "desde os Sete Sábios do tempo da Polis grega primitiva", a quem nossa civilização se sente de certo modo filiada, "vale para cada cidadão em um Estado livre a seguinte tese: a injustiça, que for feita a um outro cidadão, é feita a mim. Um Estado de Direito livre ou um regime de governo republicano (no sentido de Kant) só está lá onde esta tese se efetiva" (JASPERS, ..., p. 43). Ora, nesta perspectiva, podemos ser, ainda, de fato, considerados um Estado de Direito livre ou uma forma de governo republicano, se o destino das chamadas "microetnias" não nos afetar nem nos importar? O que é esse "destino nacional", que não reconhece e não se deixa perturbar pelo destino trágico dos povos que habitam seu território? Somente o resultado da violência brutal da civilização de bárbaros, ou a liberdade conquistada pelo bom senso e pela universal capacidade de raciocinar?

Certamente, diante do destino das "microetnias" existentes no território brasileiro, poderia haver quem dissesse que o Estado foi criado em vista da proteção dos direitos civis dos povos que o compõem, sendo estes, pois, os limites de sua responsabilidade. A própria sentença de Jaspers acima citada fala da responsabilidade pelos ditos cidadãos. Como responsabilizar o Estado pelo destino daquelas etnias que vivem dentro dentro de seu território mas não o compõem efetivamente? É preciso, porém, pensar, que, em um Estado, há povos - e sempre houve - que não fazem parte desse Estado. Dentro dos limites territoriais de um Estado, há sempre, por toda parte do mundo, povos que ou são herdeiros das terras que antes não eram tidas como pertencentes a tal Estado, ou povos refugiados (ou escravizados, expatriados ou imigrantes ilegais). Como o Brasil e outros países têm procurado lidar com essa questão?

Filosoficamente, há duas questões fundamentais a serem colocadas aqui: primeiro é preciso assumir que a questão étnica nunca se tornou suficientemente um problema filosófico para o pensamento europeu ou eurocêntrico, tornando-se apenas um objeto para a ciência empírica; o sentimento de pertença étnica na constituição da pessoa humana é ainda um enigma importante a ser pensado. Por outro lado, em segundo lugar, em vista de que, em última instância se constitui o Estado? Será que é somente, de fato, uma grade protetora de seus cidadãos? Ou tem ele algum compromisso com a ideia de humanidade que, em última instância, tem em vista?

Por fim, gostaria apenas de discutir se, diante dos fatos, convém continuarmos aplicando aos povos indígenas do Brasil esse conceito de "microetnias tribais", frente a uma chamada "macroetnia nacional". São muitas etnias no Brasil, algumas desconhecidas, muitas conhecidas; algumas com suas terras demarcadas e garantidas, outras que nem sequer tiveram suas terras demarcadas. Por exemplo:

No Parque Nacional do Monte Pascoal, próximo aos municípios de Barra Velha, e entre Porto Seguro e Santa Cruz de Cabrália, vivem os Pataxós, que, de acordo com dados da FUNAI, em 1976 constituíam uma população de 684 habitantes na Aldeia de Barra Velha, e hoje contam nessa mesma aldeia com cerca de 3.118 habitantes, ao passo que em Coroa Vermelha, cuja população também tem crescido, encontram-se hoje cerca de 2.600 habitantes. A FUNAI informa que "embora concentrada majoritariamente na Aldeia de Barra Velha" a população Pataxó conta ainda com mais "dois núcleos de povoamento": "O mais antigo deles, o de Embiriba, está localizado cerca de 20 km ao Norte de Barra Velha, também junto à costa, próximo à foz do Rio dos Frades, enquanto que o núcleo da Coroa Vermelha, a formação mais recente e estimulada pela atividade artesanal e pelo fluxo turístico, localiza-se às margens da rodovia que liga Porto Seguro a Santa Cruz de Cabrália, próximo a estas duas cidades" (FUNAI, http://www.funai.gov.br/portal/, 29/03/2013). Dos 22.500 hectares de terra que constituem o Parque Nacional do Monte Pascoal, apenas 8.750 hectares estão destinados aos Pataxó.

Os autodenominados A'UWE, conhecidos mais comumente como Xavante, falantes da língua Akwén, contam com uma população constituída de 11.677 pessoas, distribuídas em 11 Terras indígenas no Mato Grosso do Sul: Marãiwatsede, que no dia 05 de abril deste ano celebrou sua desintrusão (cf. FUNAI, http://www.funai.gov.br/portal/ notícia de 09 de abril de 2013); Marechal Rondon; Sangradouro/Volta Grande (juntamente com os Bororó); São Marcos, Areões; Areões I; Areões II; Parabubure; Pimentel Barbosa; Chão Preto e Ubawawê.

Na Região do Baixo São Francisco, Município de Porto Real do Colégio - AL, vivem os chamados Kariri-Xocó, uma população constituída de cerca de 2.189 pessoas. A aldeia e o posto indígena da FUNAI estão cerca de 1 km da praça central da cidade. Os Kariri-Xocó são assim denominados em função do que é considerada a mais recente fusão entre os Kariri de Porto Real do Colégio e parte dos Xocó da ilha fluvial sergipana de São Pedro, que ocorreu cerca de 100 anos atrás. Conta-se que quando as aldeias dos Xocó foram invadidas pela polícia fundiária do Império, eles tiveram suas terras aforadas e invadidas e, tendo ido buscar refúgio junto aos Kariri da outra margem do rio, essas duas etnias foram reunidas em um único povo, tendo adotado o nome de Kariri-Xocó.

No Amazonas e Roraima, 13.818 Yanomami reside no Parque Nacional de mesmo nome, (sendo que cerca de 9.000 vivem em Roraima e 2.000 no Amazonas), sem contar ainda mais 12.000 pessoas do povo Yanomami, vivendo na Venezuela. A área territorial onde vive os Yanomami no Brasil constitui cerca de 9.419.108 hectares de distribuição contínua. Trata-se de uma região situada em sua maior parte no maciço das Guiana, grande faixa de montanhas com florestas equatoriais.

Os autodenominados PANKAIAUCÁ, habitantes da Terra Indígena (TI) Cristo Rei, conhecidos como Pacararu, e que também constituem outra comunidade na TI Entre Serras, ambas situadas na Região do Brejo dos Padres - PE, entre a Cachoeira de Itaparica e a Cachoeira de Paulo Afonso e o Município de Tacaratu e Petrolândia, contam com uma população de 5.217 habitantes. A área territorial em que vivem, já homologada pela União, é de 8.100 hectares entre os municípios de Petrolândia e Tacaratu, de um total de 14.294 hectares de área identificada como pertencente aos Pankararu (cf. www.ufpe.br/nepe/povosindigenas/pankararu.htm. Acesso em: 29/03/2013). Há que se levar em conta, além disso, que cerca de 900 migrantes Pankararu, os quais lutam lá por uma terra onde possam restabelecer sua comunidade e sua cultura.

Em Águas Belas - PE, numa área territorial ainda não homologada de 11.505 hectares, vivem 3.229 Fulni-ô. Os Fulni-ô. "Os Fulni-ô atualmente ocupam uma área dividida em 427 lotes individuais, que totalizam 11.505 ha. Este perímetro registrado pela FUNAI, está inserido nos limites de uma proposta de terra (ainda não formalizada) a partir de estudos de identificação realizada por GT no ano de 2003. Recentemente foi constituído GT (Portaria 492/PRES/04 de 16.04.2004) para dar prosseguimento aos estudos iniciados em 2003, com a conclusão do levantamento Fundiário, que havia sido interrompido pela FUNAI no final do ano passado." (www.ufpe.br/nepe/povosindigenas/fulnio.htm. Acesso em: 29/03/2013).

Enfim, como acentua Lúcia Gaspar "de acordo com o Censo 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) existem no Brasil 896,9 mil índios, integrantes de 305 etnias, das quais a maior é a Tikuna, com 46.045, ou seja, 6,8% da população indígena brasileira" (GASPAR, 2011).

Por tudo isso, importa repensar o conceito e o próprio dualismo entre "micro-" e "macroetnia". As etnias não são tão pequenas assim e tenderão a crescer ainda mais se tiverem garantidas suas terras e puderem constituir sua vida em meio aos processos da economia global contemporânea.


REFERÊNCIAS

GASPAR, Lúcia. Línguas Indígenas no Brasil. Pesquisa Escolar Oline, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. 19/04/2011. Disponível em <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: 19/04/2013.

JASPERS, Karl.

NABUCO. Joaquim.

NABUCO. Joaquim.

RIBEIRO. Darcy. O Povo Brasileiro. 2006.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Sobre os Povos Nativos da Região da Bacia do Piranhas-Açu: Os Tarairiu

Denominados sob o atributo genérico atribuído pelos povos Tupi como Tapuias, considerados inimigos dos Tupi, os povos que viveram na região às margens dos afluentes do Rio Piranhas-Açu eram da família linguística de matiz Gê (STEWARD, 1946, p. 381). De acordo com Fátima Martins Lopes, o povo que habitava a região sertaneja do Seridó, às margens dos rios Jaguaribe, Apodi, Piranhas, Açu, Sabugi e Seridó, era formado pelos Tarairiú (LOPES, 2003, p. 137, apud Juciene Ricarte APOLINÁRIO, 2009, p. 3). “É praticamente impossível construir uma reconstituição etnográfica, precisa, das várias etnias Tarairiú citadas nas fontes históricas e bibliográficas, no entanto, até o momento, podem ser classificados como: Janduí, Ariú, Pega, Kanidé, Genipapo, Paiacu, Panati, Korema, Xukuru, Kavalcante e outros que por não aparecerem identificados na documentação colonial são denominados genericamente de Tapuia (LOPES, 2003:138)”, assegura Juciene Ricarte Apolinário (APOLINÁRIO, 2009, p. 3).
                Os Tarairiú eram nômades e o sistema de parentesco se caracterizava por constituir uma descendência matrilinear (cf. APOLINÁRIO, op. Cit., p. 4.) Segundo Juciene R. Apolinário,  “as terras indígenas passaram a ser, continuamente, açambarcadas e as relações entre os povos Tapuia e colonizadores tornaram-se ainda mais conflituosas, desencadeando práticas contínuas de resistências indígenas que ficou conhecida como “Guerra dos Bárbaros”. Conflito que se deu por quase cem anos entre os séculos XVII até a segunda metade do século XVIII, alcançando desde os sertões da Bahia até o Maranhão (PIRES, 2002:33)” (APOLINÁRIO, 2009, p. 5). Ainda de acordo com Juciene, “a principal orientação política perceptível nas variadas fontes manuscritas entre os séculos XVII e XVIII, levada a termo pelos agentes coloniais, era o extermínio dos Tapuia vistos como obstáculos a concretização do projeto colonial de El Rei e deseus vassalos, estes últimos, os empreendedores das fronteiras criatórias do sertão (PUNTONI,2002:17)” (ibidem). “Estes Tapuyos a que chamam Jandoins...” (carta de José Lopes Ulhoa ao rei de Portugal) foram os que desenvolveram alianças com os holandeses e se utilizaram de armas e cavalos além de estratégias de ataque conseguidas e aprendidas com os holandeses segundo Juciene (cf. ibidem, p. 6). “Uma das estratégias de lidar com a guerra contra os inimigos era não se deixar aprisionar através de táticas de fugas em que se utilizava, sobremaneira, a velocidade com bastante destreza em espaços naturais inóspitos como regiões de Caatinga. Diante de todas as estratégias de luta contra os inimigos portugueses, os Jaduí foram derrotados na ribeira do Seridó, pela bandeira chefiada por Domingos Jorge Velho e finalmente tiveram o seu principal denominado de Canidé, capturado e preso. Reconhecido pelos próprios representantes da coroa portuguesa como “rei dos Janduí”, a principal etnia em guerra contra os luso-brasileiros, viviam entre as capitanias de Pernambuco, Itamaracá, Paraíba e Rio Grande, totalizando aproximadamente, treze mil indígenas e destes cinco mil homens guerreiros de arco em punho. (PUNTONI, 2002:155).” (ibidem, p. 7).
Outro grupo de Tapuias eram os Ariús. Além deles os Panatís, que habitaram às margens do Rio Piranhas.
LOPES, Fátima Martins. Índios, colonos e missionários na colonização da capitania do Rio Grande do Norte. Mossoró: Fundação Guimarães Duque, 1999.
PIRES, Maria Idalina da Cruz. A guerra dos Bárbaros. Resistência e conflitos no nordeste colonial. Recife: UFPE, 2002.
POMPEU SOBRINHO, Thomaz. Os tapuias do Nordeste e a monografia de Elias Herckman. Revista do Instituto do Ceará, v. 48, 1934, p. 3-120.
PUNTONI, Pedro. A Guerra dos Bárbaros. Povos e a colonização do sertão nordeste do Brasil, 1650-1720. São Paulo: Hucitec/USP/ FAPESP, 2002.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Três Anos Unidos...

Unir é Reunir... Juntar Tudo, e de Tudo fazer Um Só...


Deus Abençoe nossa União
Deus abençoe nossa Família ...
Nossas Raízes... nossas Origens,
Nossos Ancestrais e nossos Descendentes ... daqui até à Posteridade!
Que o Amor perdure e una Tudo em Um Só.



"Amar é gerar na Beleza, tanto segundo a Alma quanto segundo o Corpo"
Platão, Banquete


domingo, 23 de setembro de 2012

O Ímpeto Revolucionário no Lema dos Inconfidentes


Chegamos ontem de Minas Gerais: minha esposa, meus dois filhos e eu. Quando parti em viagem, nem me dei conta que o tema da minha palestra sobre a angústia, como prenúncio da liberdade, teria tanto a ver com a terra dos Inconfidentes. Chegando a Belo Horizonte, não pensei em nada disso; mas quando fui para a Rodoviária, a fim de tomar o ônibus para São João Del Rey, onde eu haveria de participar do encontro em que daria a palestra, logo me chamaram à atenção as camisas à venda nas lojas, com as cores, o símbolo e o lema da bandeira de Minas: o Triângulo Vermelho sobre Fundo Branco e o Enigmático Lema em Preto: LIBERTAS QUAE SERA TAMEN. Confesso, que na ocasião, nem me dei conta, que estava justamente indo para a terra, onde viviam os remanescentes de um povo, que viu nascer o Mártir dos Inconfidentes, e que seria solo-pátrio de um dos maiores estadistas que a nação brasileira conheceu. Indo a Tiradentes, veio-me à tona a História, sobre a qual eu, porém, jamais tive ocasião de aprofundar, tendo guardadas apenas as ínfimas informações que me lembrava de meus tempos de escola. Em Tiradentes, diante da estátua do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, defronte ao lar onde o mesmo vivera dos nove aos dezessete anos, tal como me informara um dos trabalhadores, que labutavam na reforma da antiga casa, eu pude finalmente perceber melhor em que chão estava pisando. E quando, no retorno para São João Del Rey, eu visitei o Memorial Presidente Tancredo Neves, senti no coração e nos olhos as torrentes da emoção que, como um córrego, jorra e escoa na minha “alma” de brasileiro.

Thais e eu nos comovemos profundamente, ao mesmo tempo em que íamos aprendendo muito com os vestígios dos fatos recolhidos e apresentados pelo Memorial, enquanto Felipe distraía-se com as imagens projetadas e Marília corria e pulava pelas salas.  Eu recordava-me muito de meu pai, que foi pemedebista fervoroso na época da Ditadura e ansiou profundamente, como muitos brasileiros, por ver solapado aquele regime totalitário e florescer um regime que correspondesse aos anseios de liberdade de toda uma nação. E ao chegar à sala em que se faz memória da morte de Tancredo, antes que pudesse assumir a Presidência da República, fato que chocou o Brasil inteiro, eu não parava de me lembrar do instante em que junto com minha família, lá em Patos, eu, ainda garoto, compartilhava desse choro nacional, junto à minha avó, meu avô, meu pai e minha mãe. Ler a última carta de Tancredo a Sarney fez-me entender que naquele homem havia muita sabedoria e, seguramente, podia confiar que em sua mente e coração subsistiam a inteligência, honestidade e sinceridade de um dos grandes estadistas que o Brasil já possuiu, e que valia à pena não só recuperar e compreender sua história, mas também ler algo de seus escritos ou discursos. Por sorte que, como eu esperava, no Memorial foi também possível conseguir uma coletânea de seus principais discursos. No Hotel, ao ler alguns desses discursos, fiquei estupefato, porque Tancredo não parecia ser somente um homem de fato inteligente, além de todas as suas virtudes políticas, mas pareceu-me de fato alguém, cujo ideal emergia do mesmo anseio de liberdade que brotou naquela terra desde os inconfidentes, e se fez visível em muitos momentos e no coração de muitos homens e mulheres na história do Brasil, ainda que, certamente, isso não pudesse acontecer sem ambivalências.

O que levou os revolucionários e estadistas brasileiros a estar vivendo na Utopia, no bom lugar em lugar nenhum, isto é, a se colocarem no horizonte da utopia ativa? A esta pergunta responderam bem os Inconfidentes, ao repetirem a resposta de Tityrus a Meliboeus nas Bucolica de Virgílio, quando Melibeus pergunta a Tityro o que o teria levado a viver em Roma, ao que Melibeus responde:

“Libertas: quae, sera, tamen respexit inertem;
Candidior postquam tondenti barba cadebat;
Respexit tamen, et longo post tempore venit...”
(Virgílio, Bucolica, Ecloga I, 27-30) 

O que pode levar alguém a estar vivendo no bom lugar em lugar nenhum?

“A Liberdade: que, tarde, no entanto, disse respeito ao inerte;
Quando, depois de cortada, a barba caía mais branca;
Disse respeito, no entanto, e após longo tempo veio... ” 

           Sendo acometido pela liberdade, o cidadão pode colocar-se no horizonte daquilo que não está dado em lugar nenhum e, contudo, embora tarde, encontra lugar na libertação de quem se vê acometido pela liberdade e, numa esperança ativa, vive e age em função de seu vislumbre, da visão da liberdade pela qual se vê acometido. A visagem da liberdade faz-nos viver no horizonte da utopia. E isto animou grandes revolucionários e estadistas brasileiros. Acometido pelo ímpeto de liberdade, o indivíduo liberta-se para viver e agir segundo a esperança da liberdade que vislumbra em seu íntimo. 


terça-feira, 24 de julho de 2012

Filosofia no Brasil: 150 Anos do Nascimento de um dos seus maiores Mestres

A 150 anos atrás, no dia 24 de julho de 1862, a pequena Vila de São Benedito, às margens do Rio Arabê, junto à Serra de Ibiapaba, no Ceará, via nascer a criança que se tornaria um dos grandes Mestres da Filosofia no Brasil. Seu nome: Raymundo de Farias Brito. Filho primogênito do escrivão Marcolino José de Brito e de Dona Eugênia Alves Ferreira, e formado em Direito na Faculdade de Direito do Recife, Farias Brito é autor de uma obra filosófica que se mostra como uma das maiores sínteses críticas do pensamento metafísico moderno, na perspectiva de refundar a metafísica moderna em novas bases. Numa época em que, no Brasil, a Filosofia não havia ainda encontrado o seu lugar ao Sol, o pensamento de Farias Brito emerge com um impulso promissor, que, apesar de ter ficado esquecido como quase tudo o que há de genuíno e brasileiro no Brasil, resguarda um valor profundo para todo aquele que procura dialogar com os autênticos pensadores nas veredas da filosofia.


Ainda que no Brasil não houvesse muito estímulo ao estudo da filosofia, como ele mesmo afirma, "considerando-se mesmo entre nós inútil os estudo da filosofia", Farias Brito se esforça por edificar uma obra de caráter metafísico que se propunha à investigação da seguinte pergunta: "Qual é o fim a que tende a evolução universal, para onde vai tudo isto que nos cerca, em que consiste a finalidade do mundo?" Foi no intuito de responder a esta pergunta que ele inicia sua empreitada filosófica em 1895 através da publicação do primeiro volume da obra A Finalidade do Mundo, no qual pretendeu apresentar A Filosofia como Atividade Permanente do Espírito. À época, o ensino de Filosofia havia sido oficialmente suprimido pelo governo pós-republicano, que, guiado sob o espírito positivista comteano e sob a direção do Marechal Deodoro da Fonseca, já não via na filosofia o caminho para a reconstrução, mas apenas nas produtivas e eficazes ciências positivas. Como afirma Farias brito: "depois de pouco tempo havia sido suprimida como inútil, do Liceu ou estabelecimento correspondente, em todos os estados, a cadeira de filosofia". Testificou, assim, que "a República começou no Brasil declarando guerra de morte à filosofia". E assegura: "Verdade é que o que então se ensinava como filosofia era uma cousa indigesta e absolutamente intragável, sendo de rigorosa necessidade uma reforma na organização do ensino, não somente da filosofia, mas de todas as outras matérias que constituem o objeto do curso secundário e superior no país." Compreendendo esta verdade, afirma, porém o mestre e autêntico educador que "a reforma a fazer-se, devia ser no sentido de melhorar, não de suprimir." Mas atesta que "Não sucedeu assim: fez-se uma reforma que chamarei desesperada; organizou-se um programa palavroso e estéril, feito de todo nos moldes positivistas, absurdo em teoria, impraticável de fato, espécie de encadeamento de fórmulas aparatosas destinadas a enganar pela aparência exterior, de modo que a julgar por aquilo a nação, nada é mais triste do que a ideia que se deve fazer do estado da nossa civilização. E quanto à filosofia, identificada à retórica, foi suprimida como inútil." E como se não bastasse, escreverá Farias Brito ainda em 1912, começando por dizer isto mesmo que já afirmara em 1895: "Em nosso país, verificou-se: a filosofia foi suprimida como inútil do ensino oficial. E agora mesmo, na nova reforma que acaba de ser decretada e imediatamente posta em execução, a reação foi ainda mais radical, tendo sido suprimidas a cadeira de Lógica, no Ginásio Pedro II, e a cadeira de Filosofia do Direito nas escolas de direito, o que prova que o positivismo ainda não perdeu de todo o seu império nas altas esferas governamentais em nossa Pátria".


Foi nessas condições que começara a filosofar e erigiu um grande edifício filosófico, digno de um povo que merece pensar a si, a sua história e a história da humanidade. Não se poderá fazer isso sem a Filosofia, e isto farias Brito pôde mostrar muito bem. Curioso que, quando todas as manobras governamentais e e políticas educacionais conspiravam contra a filosofia, ela tenha se feito manter através da pena e pensamento  deste filósofo ilustre. Comemorar e, através disso, rememorar o pensamento de Farias Brito nesses 150 anos de seu nascimento, é uma boa forma de mantê-la viva em nossas almas brasileiras desmemoriadas.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Filosofar por Fragmentos: uma exigência preliminar de uma Filosofia Ancestral

"... o poeta  não está a inventar o argumento e o verso da história que relata,
mas a recordá-los, invocando uma memória ancestral e um verbo herdado."
José Gabriel Trindade Santos

Será que tal como os antigos poetas gregos, poetas historiadores e poetas filósofos, poetas míticos e lógicos de quem fala a epígrafe acima, estaria também o labor poético de nossos povos, poético aqui em sentido lato, a expressar a invocação de uma memória ancestral e um verbo herdado? Será que é possível recuperar, pelos fragmentos do labor poético que nos restam, a expressão crítica do pensamento dos nossos antigos ancestrais?

terça-feira, 14 de junho de 2011

O Sangue Nagô do Brasil


Enviado por  em 22/09/2009 youtube
Interpretação da Música Gerusa com Cris Campos no Show AFRODITES. Teatro Alcione Nazaré em São Luís- Ma. 
Grupo AFRODITES: Cris Campos, Camila Cutrim, Camila Pinto, Camila Reis, Fernanda Branca, Fernanda Preta, Jânia Lindoso, Rebeca Alexandre, Talita Cavalcante e Tieta Macau. 
Produção executiva: Hérika Fernandes
Assistente de palco: Marianne Serra 
Composição: Sivuca. 
Produção de Vídeo: Mídia Dois. 
Cameras e edição: Beto Pio e Ed Monteiro.



MÃE ÁFRICA
Sivuca


No sertão, mãe que me criou
Leite seu nunca me serviu
Preta Bá foi que amamentou
Filho meu, filho do meu filho
No sertão, Mãe Preta me ensinou
Tudo aqui nós que construiu
Filho meu, tu tem sangue Nagô
Como tem todo esse Brasil
Lelê ô lelê ô lelê ô lalá
Lelê ô lelê ô lelê ô lalá
Lelê ô lelê ô lelê ô lalá
Lelê ô lelê ô lelê ô lalá
Oiê, pros meus irmãos de Angola África
Oiê, pra Moçambique e Congo África
Oiê, para a Nação Bantu África
Oiê, do tempo do Quilombo África
Pelo bastão de Xangô
E o caxangá de Oxalá
Filho Brasil pede a bênção Mãe África
Pelo bastão de Xangô
E o caxangá de Oxalá
Filho Brasil pede a bênção Mãe África

É assim que a reinterpretação do Brasil verdadeiro vai se reconstruindo... com seus nomes e ritmos. Não há História verdadeira do Brasil sem esses nomes... Sem os vestígios dos nossos antepassados. "Mãe África", de Sivuca, assim como "Chegança" de Antônio Carlos da Nóbrega, interpretam em nomes e ritmos a Verdadeira História do Brasil.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Apelo Xavante

E-mail enviado por Frei Gilvander, Carmelita.

CARTA DO CACIQUE MUTUA SOBRE BELO MONTE

Amiga/o, o Governo Federal, ajoelhado aos pés do ídolo capital, autorizou o início das obras da Barragem e Hidrelétrica de Belo Monte, na região do Xingu. Essa obra, que está iniciando, não terminará, pois é maldita, agride de forma impiedosa a sacralidade existente na região, testemunhada pela profética carta do cacique Mutua. Abraço na luta. Frei Gilvander Moreira.
Cf., abaixo ou o anexo.

CARTA DO CACIQUE MUTUA SOBRE BELO MONTE

"Carta do Cacique Mutua (dos Povos Xavantes) a todos os povos da Terra

        O Sol me acordou dançando no meu rosto. Pela manhã, atravessou a palha da oca e brincou com meus olhos sonolentos. O irmão Vento, mensageiro do Grande Espírito, soprou meu nome, fazendo tremer as folhas das plantas lá fora. Eu sou Mutua, cacique da aldeia dos Xavantes. Na nossa língua, Xingu quer dizer água boa, água limpa. É o nome do nosso rio sagrado. Como guiso da serpente, o Vento anunciou perigo. Meu coração pesou como jaca madura, a garganta pediu saliva. Eu ouvi. O Grande Espírito da floresta estava bravo. Xingu banha toda a floresta com a água da vida. Ele traz alegria e sorriso no rosto dos curumins da aldeia. Xingu traz alimento para nossa tribo.
  Mas hoje nosso povo está triste. Xingu recebeu sentença de morte. Os caciques dos homens brancos vão matar nosso rio. O lamento do Vento diz que logo vem uma tal de usina para nossa terra. O nome dela é Belo Monte. No vilarejo de Altamira, vão construir a barragem. Vão tirar um monte de terra, mais do que fizeram lá longe, no canal do Panamá.
  Enquanto inundam a floresta de um lado, prendem a água de outro. Xingu vai correr mais devagar. A floresta vai secar em volta. Os animais vão morrer. Vai diminuir a desova dos peixes. E se sobrar vida, ficará triste como o índio.
  Como uma grande serpente prateada, Xingu desliza pelo Pará e Mato Grosso, refrescando toda a floresta. Xingu vai longe desembocar no Rio Amazonas e alimentar outros povos distantes. Se o rio morre, a gente também morre, os animais, a floresta, a roça, o peixe tudo morre. Aprendi isso com meu pai, o grande cacique Aritana, que me ensinou como fincar o peixe na água, usando a flecha, para servir nosso alimento.
  Se Xingu morre, o curumim do futuro dormirá para sempre no passado, levando o canto da sabedoria do nosso povo para o fundo das águas de sangue. Pela manhã, o Vento me levou para a floresta. O Espírito do Vento é apressado, tem de correr mundo, soprar o saber da alma da Natureza nos ouvidos dos outros pajés. Mas o homem branco está surdo e há muito tempo não ouve mais o Vento.
  Eu falei com a Floresta, com o Vento, com o Céu e com o Xingu. Entendo a língua da arara, da onça, do macaco, do tamanduá, da anta e do tatu. O Sol, a Lua e a Terra são sagrados para nós. Quando um índio nasce, ele se torna parte da Mãe Natureza. Nossos antepassados, muitos que partiram pela mão do homem branco, são sagrados para o meu povo.
  É verdade que, depois que homem branco chegou, o homem vermelho nunca mais foi o mesmo. Ele trouxe o espírito da doença, a gripe que matou nosso povo. E o espírito da ganância que roubou nossas árvores e matou nossos bichos. No passado, já fomos milhões. Hoje, somos somente cinco mil índios à beira do Xingu, não sei por quanto tempo.
  Na roça, ainda conseguimos plantar a mandioca, que é nosso principal alimento, junto com o peixe. Com ela, a gente faz o beiju. Conta a história que Mandioca nasceu do corpo branco de uma linda indiazinha, enterrada numa oca, por causa das lágrimas de saudades dos seus pais caídas na terra que a guardava.
O Sol me acordou dançando no meu rosto. E o Vento trouxe o clamor do rio que está bravo. Sou corajoso guerreiro, não temo nada.
  Caminharei sobre jacarés, enfrentarei o abraço de morte da jiboia e as garras terríveis da suçuarana. Por cima de todas as coisas pularei, se quiserem me segurar. Os espíritos têm sentimentos e não gostam de muito esperar.
  Eu aprendi desde pequeno a falar com o Grande Espírito da floresta. Foi num dia de chuva, quando corria sozinho dentro da mata, e senti cócegas nos pés quando pisei as sementes de castanha do chão. O meu arco e flecha seguiam a caça, enquanto eu mesmo era caçado pelas sombras dos seres mágicos da floresta. O espírito do Gavião Real agora aparece rodopiando com suas grandes asas no céu. Com um grito agudo perguntou: Quem foi o primeiro a ferir o corpo de Xingu? Meu coração apertado como a polpa do pequi não tem coragem de dizer que foi o representante do reino dos homens. O espírito do Gavião Real diz que se a artéria do Xingu for rompida por causa da barragem, a ira do rio se espalhará por toda a terra como sangue e seu cheiro será o da morte.
  O Sol me acordou brincando no meu rosto. O dia se abriu e me perguntou da vida do rio. Se matarem o Xingu, todos veremos o alimento virar areia.
  A ave de cabeça majestosa me atraiu para a reunião dos espíritos sagrados na floresta. Pisando as folhas velhas do chão com cuidado, pois a terra está grávida, segui a trilha do rio Xingu. Lembrei que, antes, a gente ia para a cidade e no caminho eu só via árvores.
 Agora, o madeireiro e o fazendeiro espremeram o índio perto do rio com o cultivo de pastos para boi e plantações mergulhadas no veneno. A terra está estragada. Depois de matar a nossa floresta, nossos animais, sujar nossos rios e derrubar nossas árvores, querem matar Xingu.
  O Sol me acordou brincando no meu rosto. E no caminho do rio passei pela Grande Árvore e uma seiva vermelha deslizava pelo seu nódulo. Quem arrancou a pele da nossa mãe? gemeu a velha senhora num sentimento profundo de dor. As palavras faltaram na minha boca. Não tinha como explicar o mal que trarão à terra. Leve a nossa voz para os quatro cantos do mundo clamou O Vento ligeiro soprará até as conchas dos ouvidos amigos ventilou por último, usando a língua antiga, enquanto as folhas no alto se debatiam.
  Nosso povo tentou gritar contra os negócios dos homens. Levamos nossa gente para falar com cacique dos brancos. Nossos caciques do Xingu viajaram preocupados e revoltados para Brasília. Eu estava lá, e vi tudo acontecer.
  Os caciques caraíbas se escondem. Não querem olhar direto nos nossos olhos. Eles dizem que nos consultaram, mas ninguém foi ouvido.
  O homem branco devia saber que nada cresce se não prestar reverência à vida e à natureza. Tudo que acontecer aqui vai voar com o Vento que não tem fronteiras. Recairá um dia em calor e sofrimento para outros povos distantes do mundo.
  O tempo da verdade chegou e existe missão em cada estrela que brilha nas ondas do Rio Xingu. Pronta para desvendar seus mistérios, tanto no mundo dos homens como na natureza.
 Eu sou o cacique Mutua e esta é minha palavra! Esta é minha dança! E este é o meu canto!
Porta-voz da nossa tradição, vamos nos fortalecer. Casa de Rezas, vamos nos fortalecer. Bicho-Espírito, vamos nos fortalecer. Maracá, vamos nos fortalecer. Vento, vamos nos fortalecer. Terra, vamos nos fortalecer. Rio Xingu! Vamos nos fortalecer!
Leve minha mensagem nas suas ondas para todo o mundo: a terra é fonte de toda vida, mas precisa de todos nós para dar vida e fazer tudo crescer. Quando você avistar um reflexo mais brilhante nas águas de um rio, lago ou mar, é a mensagem de lamento do Xingu clamando por viver.

 Cacique Mutua",
Xingu, Pará, Brasil, 08 de junho de 2011.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Abolição da Escravatura ou Início do Processo Abolicionista?

"Acabar com a escravidão não nos basta;
é preciso destruir a obra da escravidão."
Joaquim Nabuco

Várias vezes ouvi dizer que a abolição da escravatura levada a cabo no seu primeiro momento pela proclamação da Lei Áurea através da pena manuseada por Princesa Isabel foi uma espécie de farsa. Mas quem lê Joaquim Nabuco percebe o quanto era urgente um ato de caneta, ao mesmo tempo que percebe que o Abolicionismo apenas começara pela abolição à caneta; pois do mesmo modo que a escravidão e o sistema que a mantinha durou três penosos séculos, após a proclamação da Lei Áurea, estamos apenas no fim do primeiro terço do movimento abolicionista que se instaurara no Brasil, e que necessita ainda continuar a exercer seus efeitos libertadores. Tornamo-nos nós de fato livres, descendentes dos nossos ancestrais africanos, escravizados e macerados nessas terras? Pois somos de fato todos descendentes de nossos ancestrais africanos: "... o nosso povo é isso mesmo, é um povo de pés no chão e mangas de camisa, e não é um povo branco." (NABUCO, 2010, p. 166). É preciso estar consciente de que "essa escravidão maldita", que durou tanto tempo em nossas terras, não é somente "o fratricídio de uma raça", mas fundamentalmente "o parricídio de uma nação" (NABUCO, 2010, p. 159). Não estamos ainda totalmente livres dos efeitos maléficos desse "terrível azorrague", que "não açoitou somente as costas do homem negro", como também "macerou as carnes de um povo todo" (NABUCO, 2010, p. 68).

Depois de trezentos miseráveis anos de escravidão, e após somente cem anos do começo da abolição, é preciso continuar o Processo Abolilcionista. Ele está apenas começando. Levantar a bandeira do "Abaixo à Escravidão!", nela inscrita como um "brado de civillização" (NABUCO, 2010, p. 119), deve continuar a ser o ato genuíno de todo brasileiro. Não podemos compreender um brasileiro que não queira integrar o movimento abolicionista. E "... enquanto houver um escravo no Brasil nós, abolicionistas, devemos trazer em nossos corações o luto da pátria..." (NABUCO, 2010, p. 147). E, aliás, devemos ainda continuar o nosso luto, por "cada vida humana passada do berço ao túmulo em cativeiro... cada açoite sofrido por não trabalhar a contento de outrem... cada criança morta por se ter impedido a mãe de aleitá-la... cada mulher violada em seu pudor... cada pecúlio de lágrimas... cada família dispersa para sempre do Norte ao Sul nesta Sibéria tão implacável... cada morte por maus-tratos e perseguição diária... cada suicídio por excesso de sofrimentos... cada crime para trocar o cativeiro pelas galés... cada indivíduo explorado minuto por minuto em suas aptidões, sua saúde, e até em sua dedicação e seu amor..." (NABUCO, 2010, p. 191). Nosso luto não pode ter ainda acabado sabendo que em nossa história vivemos 300 anos desta quantidade imensa de maldades e mortes...

Joaquim Nabuco assegurou em 1886: "... o imperador não pode estimar que se fale muito em escravidão. Eu, por exemplo, há oito anos quase não me ocupo de outra coisa, e assim reduzi minha inteligência, errática por natureza, não felizmente a fixar-se nessa idéia única, porque isso a teria morto num cárcere, mas a nada produzir que não tivesse relação imediata e direta com a enfermidade orgânica do país, o seu mal incurável. Quem é homem de letras avalia bem esse sacrifício de concentrar as 'faculdades criadoras' do pensamento em uma obra exclusiva, da qual se começa por fazer uma religião e se acaba tendo por fazer uma vida. Eu, porém, não fiz da abolição uma coisa, e não estou fazendo outra, por prazer, nem por vocação de apóstolo, mas por dever, obedecendo ao simples imperativo categórico da minha nacionalidade, ao fato unicamente de ser brasileiro; e como eu há tantos!" (NABUCO, 2010, p. 182-183). Não estamos tão longe da escravidão e seus efeitos para não precisarmos mais nos tornar abolicionistas. Essa marca trágica de nossa história ancestral praticamente nos obriga por dever a manter em vigor o processo abolicionista que apenas começou em seu ponto de viração quando a 7 de maio de 1888 um novo ministério apresentava-se diante da Câmara dos Deputados do Brasil e em 13 de maio de 1888, há exatos 123 anos "a abolição é aprovada pelo Parlamento do Império e sancionada pela regente" princesa Isabel (MELLO in NABUCO, 2010, p. 13). 

O estabelecimento da Lei é apenas um ponto de viração, a partir do qual ventos de revolta, luta e engajamento buscam conduzir um povo inteiro a um estado de humanidade mais elevado do que a brutalidade anterior na qual estava imersa. Com a lei Área não acabou a escravidão, nem o movimento quilombola e abolicionista encontrou aquilo pelo que lutaram: eles apenas conseguiram estabelecer, para toda a nação, a conduta moral anti-escravista e libertadora que a nação inteira tinha agora por dever manter. Pois devemos manter viva, em nome de nossos ancestrais, que "Nenhum povo pode ser grande sem ser livre, feliz sem ser justo, unido sem ser igual." (NABUCO, 2010, p. 145).

REFERÊNCIAS

NABUCO, Joaquim. Essencial Joaquim Nabuco. Organização e introdução de Evaldo Cabral de Mello. São Paulo: Penguin Classics, Comapanhia das Letras, 2010.



domingo, 1 de maio de 2011

Sepultura - Itsari


Produzido com a Comunidade Xavante, Aldeia Pimentel Barbosa, Mato Grosso, Brasil

Os testemunhos de Jean de Léry asseguram que os Tupinambás eram grandes admiradores do canto, da música e da dança. Acompanhemos um desses seus testemunhos:

"... Certos intérpretes normandos, há muito residentes no país, disseram-me que os nossos tupinambás costumavam reunir-se com grande solenidade de três em três ou de quatro em quatro anos; achei-me por acaso em uma dessas reuniões e eis o que me foi dado observar.
Certa vez ao percorrermos o país, eu, outro francês chamado Tiago Rousseau e um intérprete, dormimos uma noite na aldeia de Cotina; pela madrugada, ao retomarmos a marcha, vimos chegarem de todos os lados os selvagens das vizinhanças, os quais foram reunir-se em número de quinhentos a seiscentos numa grande praça. Paramos então e voltamos para saber o objetivo da assembléia; nisto os silvícolas se separaram sùbitamente em três bandos. Os homens recolheram-se a uma casa, as mulheres entraram noutras e as crianças numa terceira. Como vi dez ou doze caraíbas [pajés ou feiticeiros] entre êles, suspeitei algum acontecimento extraordinário e convenci meus companheiros a permanecerem ali até averiguá-lo.
Antes de se separarem das mulheres e meninos, os caraíbas proibiram severamente de sair das casas em que se encontravam; aí também nos encerraram. Já havíamos começado a almoçar sem nada perceber ainda do que pretendiam os selvagens quando principiamos a ouvir na casa dos homens, a qual distava talvez trinta passos daquela em que estávamos, um murmúrio surdo de rezas; imediatamente as mulheres, em número de quase duzentas, se puseram tôdas de pé e muito perto uma das outras. Os homens pouco a pouco erguiam a voz e os ouvíamos distintamente repetir uma interjeição de encorajamento: - He, he, he, he. (Esses cantos, perfeitamente autênticos, eram conhecidos de todos os brasileiros e constituíam uma espécie de ritual familiar). Mais ainda nos espantamos, porém, quando as mulheres, por seu turno, a repetiram com voz trêmula: - He, he, he, he, [Léry insere aqui uma pequena partitura do tom, melodia e ritmo em que os tupinambás entoavam sua interjeição de encorajamento He].
Assim aconteceu durante um quarto de hora...

terça-feira, 19 de abril de 2011

Aprendendo com o jeito de ser Tupinambá

No dia dedicado aos antigos povos que habitaram a terra da Ybyrapytã (arabutã, madeira rubra, pau-brasil) nada melhor do que recordar certos traços fundamentais de seu caráter, de seu jeito de ser e ver a vida. Vejamos a autonomia e maturidade dos antigos Tupinambás, através da leitura de alguns trechos do livro de Jean de Léry, Viagem à terra do Brasil.

O livro de Léry é importantíssimo para uma caracterização bastante ampla dos traços de caráter e da conduta dos Tupinambás. Já a primeira caracterização de Léry dos Tupinambás é de impressionar nos aspectos positivos que se mostram. Para eles, os “chamados Tupinambás” entre os quais residiu “durante quase um ano” e com os quais tratou “familiarmente, não são maiores nem mais gordos que os europeus; são porém mais fortes, ma[i]s robustos, mais entroncados, mais bem dispostos e menos sujeito a moléstias” (LÉRY, p. 97). Esta é a primeira caracterização física positiva que Léry enxerga nos Tupinambás. O corpo dos Tupinambás se mostra em sua força, robustez e saúde. Léry continua destacando a longevidade dos Tupinambás, dizendo que muitos deles chegam a 120 anos e acentuando uma característica corpórea que me chamou a atenção pelo fato de Léry atrelá-la a um aspecto do caráter dos Tupinambás: diz que por mais que muitos alcancem uma idade tão avançada, em sua velhice não se mostram “os cabelos brancos ou grisalhos, o que demonstra não só o clima da terra... mas ainda que pouco se preocupam com as coisas deste mundo” (LÉRY, p. 97). Léry revela que os Tupinambás não manifestam em sua vida silvícola as preocupações características que ele nota nos citadinos: aos Tupinambás não advêm as perturbações oriundas da “desconfiança” e da “avareza”, dos “processos e intrigas”, da “inveja” e da “ambição” e assegura: “Nada disso tudo os inquieta e menos ainda os apaixona e domina” (ibidem).  Estes são de fato traços do caráter extremamente positivos para a saúde do corpo e do psiquismo; é curioso que Léry os enxergue nos Tupinambás, e é importante que os tenhamos em vista na busca de requisitar os vestígios deixados por nossos antepassados. Que um povo viva sem desconfiança, avareza, processos, intrigas, inveja e ambição é um fenômeno que no mínimo deve nos chamar a atenção e até encher de espanto. O que os fazia assim? Retornam em nós, seus remanescentes, ao menos de modo escondido, os traços vivos desse caráter? Ou fomos tomados pela doentia cultura citadina que nos faz mergulhar em todos esses rudes sentimentos até que nos afoguemos todo neles? Como os Tupinambás conseguiam se ver livres da inquietude desses sentimentos? Como não se deixavam encher de paixão por esses sentimentos e como estavam imunes de serem dominados por tais sentimentos? Como esta imunidade se mantinha tão viva em seu caráter e como suas relações na lida com as coisas de seu mundo o no trato com os outros impedia que tais sentimentos viessem à tona? Procuremos ver se o restante das caracterizações de Léry nos podem apresentar respostas correspondentes a esse inquérito.
A)     Nudez sem Vergonha

Léry descreve com espanto a nudez dos Tupinambás. “Coisa não menos estranha e difícil de crer, para os que não os viram”, diz ele como quem falasse para nós próprios os pósteros que não viram nem hão de ver os Tupinambás, “é que andam todos, homens, mulheres e crianças, nus como ao saírem do ventre materno” (LÉRY, p. 98). E assegura ainda outra falta (stéresis) no jeito de sentir-se próprio dos Tupinambás, de modo não menos digno de espanto, pois esses nossos ancestrais “não só não ocultam nenhuma parte do corpo, mas ainda não dão o menor sinal de pudor ou vergonha” (LÉRY, p. 98). Vivendo nus, todos, não estavam sujeitos a sentir pudor ou vergonha por causa disso. Sentiam-se livres desses sentimentos estando nus. Este fenômeno é também curioso, mesmo para nós, seus remanescentes, os que não os vimos e não os haveremos de ver. Tem esse fenômeno algo a nos dizer?

B)     Irreligiosidade e Utopia
Um aspecto curioso, que do meu ponto de vista revela uma maturidade humana extremamente elevada presente na mentalidade dos Tupinambás, é o caráter de irreligiosidade ou mesmo ateísmo própria dos Tupinambás. Léry afirma tacitamente que os Tupinambás “não adoram quaisquer divindades terrestres ou celestes” (LÉRY, p. 175). Léry torna claro com essa afirmação um caráter próprio da experiência religiosa que ele não via presente nos Tupinambás: o caráter da adoração a uma ou mais divindades. Ora, ele não fala simplesmente da ausência de uma crença monoteísta deste povo, mas mesmo da inexistência de qualquer sentimento de adoração a divindades, celeste ou terrestre, por parte dos Tupinambás. A maturidade no que diz respeito à crença em deuses se revela de maneira ainda mais clara quando julgam, em uma determinada conversa que tiveram com Léry, o desvalio do próprio deus a quem o calvinista prega. Sendo extremamente temerosos do trovão, como um fenômeno natural que os aterrorizava, pois, como testemunha Léry, “quando ouvem o trovão são levados por uma força irresistível a temê-lo” (LÉRY, p. 179), um Tupinambá manifesta com veemência que se este deus criou o trovão, não valia nada. De fato,  Léry nos fornece o seguinte testemunho: “E quando ribombava o trovão e nos valíamos da oportunidade para afirmar-lhes que era Deus quem assim fazia tremer o céu e a terra a fim de mostrar sua grandeza e seu poder, logo respondiam que se precisava intimidar-nos não valia nada” (LÉRY, p. 176, grifo meu). É muito importante pensar nesta sentença. Ela revela primeiro: 1) o sentimento do temor pelo trovão, a quem chamavam Tupã; 2) revela em segundo lugar como o Tupinambá considerava mau este sentimento, a ponto de considerar alguém que dele se utilizasse como quem não vale nada; 3) a busca de compreensão parte da experiência fática própria, sem dar vazões a uma compreensão alheia que lhes parecesse ingênua ou, até mesmo, falsa. De fato a crença naquele alguém mítico de quem falava o nobre calvinista, exigia um compromisso deste deus para com os sentimentos mais humanos de que os Tupinambás tinham plena consciência. O mesmo acontecia quando diante de uma forte tribulação por que se viam sempre aterrorizados, eles prometiam crer nesse deus anunciado pelo calvinista francês, desde que pudesse afastar deles o maldito mateiro que lhes aterrorizava o ânimo. Léry interpreta-o como o diabo, e expõe que os Tupinambás acreditavam que “as almas dos covardes vão ter com Ainhã [gênio mal], o nome do diabo, que as atormenta sem cessar” (LÉRY, p. 177). A esta exposição Léry acrescenta o seguinte: “Cumpre notar que essa pobre gente é afligida durante a vida por esse espírito maligno a que também chamam Kaagerre [o morador do mato, o mateiro, o silvestre]” (LÉRY, p. 177); mas uma interpretação mais fina, talvez de caráter mais psicológico ou psicanalítico, pode levar a uma caracterização mais precisa dessa situação de terror na qual se viam mantidos vez por outra os Tupinambás. Pode-se compreender o Ainhã como um ânimo maligno e perturbador, talvez personificado sob esse nome Kaagerre como o morador do mato.
Esse sentimento de mundo dos Tupinambás é curioso e, a meu ver, extremamente maduro. Eles acreditavam que “depois da morte”, aqueles “que viveram dentro das normas consideradas certas, que são as de matarem e comerem muitos inimigos, vão para além das altas montanhas dançar em lindos jardins com as almas dos seus avós” (LÉRY, p. 177). Quando falo de maturidade, não falo do preceito em si, que me parece um exagero de Léry, mas da expectativa dos Tupinambás. Longe de mim acreditar que pudesse parecer madura uma gente que tivesse por único preceito de vida plena matar e comer seus inimigos, exceto, talvez, se recordarmos que em situação de extremo desespero e luta em defesa da vida de seus concidadãos, este lema a que Léry chama preceito pode ser muito comum, ainda que me pareça extremamente danoso do ponto de vista humano. Verdade, porém, é que segundo Léry, o motivo fundamental era vingança, e não propriamente defesa da própria vida. Será que poderíamos acrescentar aqui a hipótese de que um dos motivos fundamentais fosse um encorajamento à luta pela sobrevivência. O que não posso perder de vista é a esperança dos Tupinambás: viver para além das altas montanhas, a dançar em lindos jardins na companhia de seus antepassados. Este elemento de maturidade não é percebido em geral. Mas para entender o sentimento Tupinambá e em função de que pareciam insistir tanto na luta contra os inimigos no horizonte da antropofagia, é preciso ter em conta o caráter da luta pela sobrevivência em suas terras e da esperança que possuíam, ainda que certamente dever-se-á considerar o sentimento de vingança atestado por Léry, como motivo expresso pelos próprios Tupinambás. Vale lembrar que não é o mesmo de uma luta pela dominação, muito própria de civilizações imperialistas, mas pela salvaguarda de sua própria vida, especialmente à época ameaçadora da colonização, que pode ter acirrado os conflitos motivados pela vingança contra os inimigos. Importa lembrar que quando da visita de Jean de Léry já se haviam passados mais de cinquenta anos do processo de invasão e colonização, que certamente fez acender ou mesmo reacender e acirrar as possíveis inimizades já existentes entre os povos dessa terra, certamente como fruto de uma luta pela sobrevivência. Espero não estar sendo ingênuo com essa caracterização, mas é preciso fazer um estudo mais aprofundado dos motivos das inimizades então existentes à época da convivência de Léry com os Tupinambás. É preciso tentar perceber melhor quem eram considerados inimigos pelos Tupinambás e por que eram assim considerados. Vejo que a descrição de Léry não fornece dados suficientes para responder a essa questão, mas, talvez, pode apontar pistas para possíveis hipóteses. É preciso de fato buscar os motivos das ocasionais condutas antropofágicas, difícil de compreender por nossa cultura contemporânea. Mas trata-se de uma questão que não pode ficar de fora.
C)     Escuta ao dizer alheio
Há uma curiosa disposição do caráter: Léry assegura mais de uma vez que “os selvagens não costumam interromper os discursos de ninguém; por isso me ouviram atentos pelo espaço de meia hora proferindo apenas de quando em quando sua habitual interjeição: Teh.” (LÉRY, p. 187).  Isso nos revela que os Tupinambás mostravam-se extremamente curiosos e atentos. Essa disposição do caráter é fundamental para perceber o sentimento de respeito pela alteridade que tinham os Tupinambás. Ouvir o outro é de fato uma característica fundamental da existência humana que se mantém aberta ao outro.

domingo, 17 de abril de 2011

Historiografia Ancestral, Historicidade e Fecundidade da Memória

"... uma tradição ... é... o poder de esquecer as origens e de dar ao passado, não uma sobrevida, que é a forma hipócrita do esquecimento, mas sim uma nova vida, que é a forma nobre da memória."
Maurice Merleau-Ponty

A cultura tem um poder: o de retomar o que tem sido e se tornar advento criador da experiência livre de um trabalho humano, onde vigoram suas origens mais ancestrais. Pode a Historiografia chegar a instaurar essa mesma possibilidade? Será que podemos de fato falar de uma Historiografia Ancestral, que em vez de ser a simples coleta museológica de fatos do passado, faça acordar o presente para uma reconciliação pela compreensão com as origens ancestrais que pulsam em suas veias? Qual seria a diferença fundamental entre uma Historiografia Oficial, difundida, aceita e celebrada em um país, e uma Historiografia Ancestral? É uma mera consideração e exposição de outros fatos que não são trabalhados pela Historiografia Oficial?

É com certa desconfiança que a tradição filosófica pós-hegeliana vê a Historiografia como possibilidade de pensar e considerar o propriamente histórico da existência humana, o componente de sua verdadeira existência ética. De fato, já Hegel criticara em sua Fenomenologia do Espírito a postura mais comum ao labor historiográfico que se reduz à mera transmissão dos fatos do passado e suas obras, que são meros frutos de um trabalho verdadeiramente vivo e ativo da existência humana. Para Hegel, a ação do trabalho historiográfico se tornaria muitas vezes puramente exterior, na medida em que este labor se constituiria apenas no "agir externo que limpa esses frutos [que o destino nos entrega] de algumas gotas de chuva ou grãos de areia; em lugar dos elementos da efetividade do ético que os rodeia, engendra e vivifica, constrói uma prolixa armação dos elementos mortos da existência externa - da linguagem, do histórico etc. - não para adentrá-los, experimentando-lhes a vida, mas somente para representá-los dentro de si" (HEGEL, (1973 [1807], p. 415). Desse modo, a Historiografia não promoveria a autêntica "recordação do espírito", a qual implicaria em um verdadeiro reviver no íntimo (Er-innerung) a vida ética da existência no próprio lida atual. 

Nessa mesma direção, mas talvez aprofundando-a e superando-a de certo modo, a Filosofia Existencial de Sören Kierkegaard deixará de falar dessa tentativa de recuperação da memória do passado pela vida, e passará a tornar decisivo na Filosofia o conceito de re-petição ou retomada (Gjentagelsen em dinamarquês, ou Wiederholung de acordo com a versão alemã do termo). Na verdade o termo parece implicar muito mais o sentido de revisão ou melhor ainda colocar em dia o que já foi visto ou mais propriamente vivido. Trata-se de atualizar-se, colocar em dia o que de algum modo nos escapou. Penso que este é o sentido mais apropriado da expressão. Kierkegaard assevera que o conceito de repetição ou retomada "é uma expressão decisiva para aquilo que para os gregos era a 'recordação'." E acrescenta: "Como eles nomeadamente ensinavam que todo conhecimento é recordação, a nova filosofia ensinará que toda filosofia é uma retomada" (ou repetição, revisão, colocação em dia do que de algum modo já se deu, mas nos passou despercebido) (KIERKEGAARD, 2000, p. 3). Atualizar-se e colocar-se em dia com os acontecimentos no presente é justamente o que chamamos de recuperar-se em sua historicidade. Será que podemos esperar isso de uma Historiografia Ancestral? 

É possível declarar que Hegel tinha razão em sua crítica à historiografia. Após Kierkegaard, que o faz de modo implícito, tanto Friedrich Nietzsche quanto Martin Heidegger, ainda que de maneiras diferentes, mas de modo explícito procurarão aprofundar essa mesma crítica (cf. NIETZSCHE, 1994, p. 154-242; HEIDEGGER, 2001, 392-404). Frei Carlos Mesters resume de maneira simples os motivos dessa crítica:

A influência da mentalidade científica, aplicada na investigação histórica, levou os historiadores a buscarem uma precisão maior na descrição dos contornos exatos e materiais dos fatos do passado. Ora, quem começa a estudar o seu passado coloca esse passado diante de si, como algo distinto de si mesmo. Ele toma uma certa distância para poder observá-lo. Psicologicamente, surge assim uma separação entre aquele que estuda o passado e o passado que é estudado. Surge, na pessoa que faz esse estudo, uma distinção entre o presente e o passado. O passado torna-se objeto de investigação, é objetivado, e se distingue do sujeito que o investiga e ao qual pertence o passado. (MESTERS, 1999, p. 48-49)

Ora, a objetivação do passado operada pela historiografia leva a um distanciamento que torna de fato impossível pensar a historicidade da existência. Uma Historiografia Ancestral precisa ter em conta esse problema da objetivação do passado, se pretende justamente levar a existência a recuperar-se em sua historicidade.

Assim, importa elaborar o seguinte problema, com base na epígrafe desta postagem: como dar ao passado, através da Historiografia Ancestral, não uma sobrevida, que é a forma hipócrita do esquecimento, mas sim uma nova vida, que é a forma nobre da memória? 

Uma primeira coisa deve ser dita: Uma Historiografia Ancestral que pretenda superar esse problema no Brasil, não pode simplesmente equivaler-se ao método da Historiografia Oficial. A mera coleta dos fatos do passado dos povos nativos errantes, dos nautas arremessados e dos africanos escravizados e exilados nestas terras e a mera exposição dos mesmos no presente é insuficiente para uma autêntica Historiografia Ancestral.

Merleau-Ponty diz que "Husserl empregou o belo termo Stiftung - fundação ou estabelecimento - para designar... sobretudo a fecundidade dos produtos da cultura que continuam a valer depois de seu aparecimento e abrem um campo de pesquisas em que revivem perpetuamente" (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 90). Ora, a fundação ou estabelecimento da cultura por um povo é o elemento vital no qual vive o próprio antepassado. A cultura não é um conjunto de elementos mortos; é a expressão da vida vivida e do trabalho de um povo que se enraiza no passado e se projeta no futuro.

Sítio Xique-Xique IV - Seridó-RN

"Os primeiros desenhos nas paredes das cavernas", tais como a pintura acima e as muitas presentes nos diversos sítios rupestres em todo o Nordeste do Brasil, "apresentavam o mundo como 'por pintar' ou 'por desenhar', chamavam um futuro indefinido da pintura, e é isso que faz com que nos falem e com que lhes respondamos por metáforas em que colaboraram conosco" (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 91). Este chamamento de um futuro indefinido se recolhe nos vestígios do passado e se refletem em nossa atualidade. daí que a interpretação de si como histórico implica a retomada dos vestígios do passado, mas justamente na medida em que se pode perseguir os reflexos na experiência de quem os recolhe no presente. Retomada e repercussão dos vestígios do passado no presente projetivo, ativo e atualizador, é o primeiro momento de uma Historiografia Ancestral que não pretenda esquecer sua Historicidade em jogo. Fala em nós do passado algo que clama por uma reapropriação da vida, e da qual o presente se mantém esquecido? Como se restabelece esse elemento? Como tornar transparente para si mesmo o elemento de filiação e herança próprios de um pensamento e sentimento ancestrais? Através de quem esta filiação se mostra no presente? A quem recorrer para compreendê-lo?

É preciso recuperar a memória. Este é um caminho. Pois há na memória uma fecundidade. Como dizia ainda o Teólogo e Hermenêuta Carlos Mesters: "A memória conserva o passado não como coisa do passado, mas como força viva e ativa que faz o presente caminhar para o futuro. O verdadeiro passado não ficou no passado. Está nos alicerces do presente, atrás dos olhos que hoje enfrentam o futuro" (MESTERS, 1991, p. 160-161).

REFERÊNCIAS

HEGEL, G. W. F. Phenomenologie des Geistes.

HEIDEGGER, M. Sein und Zeit.

KIERKEGAARD, S. Die Wiederholung.

MERLEAU-PONTY, M. O Olho e o Espírito.

MESTERS, C. Flor sem Defesa.

MESTERS, C. Por trás das Palavras.

NIETZSCHE, F. Von Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben.